A análise das #hashtags utilizadas pelos parlamentares brasileiros como forma de identificação de bancadas virtuais e a construção de discursos políticos

Ao longo deste ano, realizamos diferentes análises do discurso político dos parlamentares brasileiros no Twitter, em 2019, como um exercício para ilustrar uma metodologia de trabalho na linha de pesquisa sobre discursos políticos do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Em publicações anteriores, mostramos que existe uma grande desigualdade no uso do Twitter entre os partidos para produzir mensagens políticas (link); identificamos alguns padrões de associação entre parlamentares a partir das comunicações que eles têm entre eles (link); e ilustramos como eles usam hashtags como marcadores linguísticos para posicionar vários tópicos nas redes sociais (link). Nesta ocasião, queremos integrar as leituras anteriores e mostrar como os grupos de parlamentares que identificamos a partir de suas interações também apresentam alguns padrões em relação aos tópicos específicos que abordam no debate político. Essa estratégia nos permite identificar, de maneira geral, algumas das questões mais representativas que circulam dentro de cada um desses grupos e que, como consequência, são consumidas com mais eficiência por seus seguidores fora do parlamento. Para fazer isso, identificamos as hashtags usadas pelos parlamentares em suas comunicações com outros parlamentares durante 2019 no Twitter.

Conforme apresentado nos textos anteriores, os padrões de interação entre parlamentares permitiram a identificação de cinco grupos. Esses grupos correspondem a parlamentares com alta comunicação entre eles na rede social Twitter e têm alta afinidade política. O Grupo 1 (azul) é um bloco de parlamentares de um dos partidos mais tradicionais da câmara, com destaque para figuras do chamado centrão. O grupo 2 (vermelho) é um grupo de parlamentares da oposição de esquerda. O Grupo 3 (verde claro) é composto exclusivamente por senadores e inclui membros de diferentes blocos políticos. O Grupo 4 (roxo) é um grupo de jovens deputados, a maioria deles associados aos movimentos de renovação política de agenda liberal que buscaram se organizar de maneira suprapartidária nas eleições de 2018. E o Grupo 5 (verde escuro) é uma base de governo mais fiel, com deputados que pertencem exclusivamente ao partido do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

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Embaixo, na figura 2, são exibidas as hashtags usadas nas comunicações entre os parlamentares no Twitter durante o ano de 2019. O tamanho da palavra indica sua frequência de aparência e a cor refere-se ao grupo político que mais a usou. Ao examinar as hashtags mais usadas, observamos que existe um amplo uso desse recurso pelos parlamentares do Grupo 2 e do Grupo 5. No Grupo 2, representado principalmente por políticos do PT e do PSOL que usaram hashtags pedindo a liberdade do ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, além de denunciar atos de corrupção e abusos por parte das autoridades, bem como estimular à mobilização social. O Grupo 5, composto principalmente por políticos do PSL, também empregou muitos hashtags em suas comunicações e se concentrou na exaltação do nacionalismo, nos valores tradicionais e na figura do presidente Jair Bolsonaro. Os Grupos 1, 3 e 4, por outro lado, mostraram um uso mais institucional ou corporativo, destacando problemas gerais no Brasil, reformas políticas, regiões geográficas e os equipes de trabalho dos parlamentares.

Figura 2. Nuvem de palavras criada a partir das hashtags usadas entre as comunicações de parlamentares brasileiros no Twitter durante o ano de 2019. As cores das palavras indicam o grupo de parlamentares que mais utilizaram essa hashtag.

Ao analisar a relação entre parlamentares e tópicos captados nas hashtags é importante observar que esses discursos on-line não são independentes das realidades off-line, ou seja, as interações no Twitter refletem de alguma forma algumas das coalizões políticas existentes no parlamento brasileiro e suas principais ideias. No entanto, há um importante elemento diferenciador: essas interações e mensagens on-line são vistas por milhões de pessoas que consomem redes sociais e, portanto, tornam-se referências-chave para a formação de ideias e de atitudes políticas no âmbito da cidadania. Assim, as pessoas podem reagir de maneiras diversas a esse tipo de mensagem políticos. Podem construir um discurso político em torno da mobilização social contra determinadas medidas políticas (por exemplo, “reforma da providência”, “apoio à democracia”), ou podem reafirmar estereótipos e preconceitos em relação a outras pessoas devido à sua afinidade política (por exemplo, “esquerda”, “patriota” etc.).

Além disso, essas interações entre cidadãos e políticos em torno dos discursos políticos online também mobilizam processos psicossociais importantes para a coesão social, como identidade social (e política) e ideias sobre o que é certo e justo em nossa sociedade. Por exemplo, durante a atual conjuntura política brasileira alimentada pela crise do COVID-19, não apenas aumentou a disseminação de Fake News e de teorias de conspiração nas redes sociais, mas também foram estimulados o emprego de algumas expressões racistas contra pessoas de origem asiática e mesmo de protestos contra a democracia. Ao mesmo tempo, o confronto de ideias políticas em um espaço on-line também pode facilitar a polarização entre pessoas que confiam em autoridades ou instituições sociais diferentes. Por exemplo, o caso daqueles que confiam em autoridades científicas (OMS, cientistas) e aqueles que confiam em autoridades políticas (presidente da república, ministros).

A partir dessa análise de hashtags empregadas por diferentes grupos políticos, podemos continuar a identificar elementos importantes na construção de discursos políticos on-line, que, no entanto, também são peças chaves na construção do discurso político off-line na sociedade brasileira. Em futuras publicações dessa linha de pesquisa, continuaremos analisando os discursos produzidos pelos parlamentares brasileiros, tanto nas redes sociais, quanto fora delas.

Nota: Para obter uma descrição das hashtags mais usadas pelos parlamentares no Twitter durante o ano de 2019, consulte a Figura 3.

Figura 3. Frequência das 5 hashtagas mais usadas nas comunicações entre parlamentares brasileiros no Twitter durante o ano de 2019, discriminadas por partido político.