Conferência da InSightCrime analisa riscos de expansão do PCC

Escrito por Angela Olaya e Josefina Salomón (Versão original em Espanhol e Inglês)

Graças a uma estratégia que combina grande capacidade organizativa, domínio das prisões, altos nível de lealdade e controle de economias ilegais, o PCC se tornou uma das mais poderosas estruturas criminosas da América do Sul.

Mas a pergunta que os especialistas em crime e segurança pública buscaram responder na conferência do InSight Crime em Buenos Aires, no dia 5 de março, foi: Quão longe a organização criminosa ainda pode ir?

Nascido nas prisões de São Paulo nos anos 1990, é estimado que o Primeiro Comando da Capital tenha hoje 30.000 membros pelo país.

“O PCC é diferente de outra organização (criminal) em estrutura, hierarquia, logística com as prisões e com a regulação do mercado criminal” diz Matthew Taylor, professor associado e especialista em Brasil na American University, em Washington DC.

O grupo prosperou com o contexto criminal brasileiro, que permitia recrutar com facilidade nas prisões superlotadas, oferecendo aos membros proteção da violência e um sentimento de pertencimento, além de prestar serviços. Este acesso a milhares de atuais e ex-presidiários foi a chave da expansão do grupo pelo Brasil e também pelo Paraguai.

Em 2016 o PCC replicou o modelo de controle das prisões em seis estados brasileiros, de acordo com Bruno Paes Manso, jornalista e pesquisador na Universidade de São Paulo. Ele contou na conferência que a grande vantagem do PCC é ser um árbitro da violência.

Em áreas sobre o controle do PCC, seja nas prisões ou nas periferias, “você não pode matar sem autorização do grupo”, explica Paes Manso.

Juan Alberto Martens Molas, professor de criminologia na Universidade Nacional de Pilar, no Paraguai, explica que os problemas institucionais e de segurança paraguaios abriram as portas para a abertura e consolidação do PCC.

Como ele apontou, a economia ilegal no Paraguai corresponde a 39% do Produto Interno Bruto legítimo do país, especialmente através da lucrativa economia criminal como contrabando e tráfico de armas e drogas. Justamente com uma resposta fraca das autoridades e uma crescente população prisional, o país tem se tornado o terreno ideal para o PCC.

Steven Dudley, codiretor da InSight Crime, descreve o PCC como um “grupo criminal muito eclético” antes de mencionar vários pontos que fazem o Paraguai um lugar ideal para a expansão do PCC. Primeiramente, o país tem uma história de grupos criminosos que acumulam poder, agindo como empresas e mudando estruturas políticas inteiras baseadas nas economias criminosas, especialmente o cultivo e produção de maconha ou contrabando de cigarro.

Segundo, há uma real institucionalização do enfraquecimento devido ao envolvimento de políticos e autoridades nas economias criminosas. Estes laços significam que os oficiais eleitos não se interessam em fortificar o sistema judiciário, prisões, polícias ou as muitas instituições necessárias para combater o PCC, enfraquecendo as instituições de propósito.

E terceiro, as prisões dos estados do Paraguai são terrenos férteis para o PCC, que o recrutamento é ancorado nas prisões. “Paraguai começou um encarceramento em massa, com uma população prisional que saltou de cerca de 3000 em 2000 para cerca de 13.000 em 2019”, explica Dudley.

Outra questão lançada no debate é se o PCC poderia se expandir ainda mais, especialmente para a Argentina. Sendo uma das maiores consumidoras de cocaína, a Argentina poderia ser um dos primeiros alvos do PCC.

Carolina Sampó, coordenadora do Centro de Estudos sobre Crime Organizado Transnacional, na Universidade de La Plata, Argentina, disse na conferência que dificilmente a Argentina seja a próxima parada do PCC.

“Argentina tem uma alta taxa de uso de drogas, mas isso não significa que é um país interessante para organizações criminosas internacionais porque o mercado é relativamente pequeno”, disse Sampó.

Ela complementa que o contexto criminal é bem diferente dos seus vizinhos, já que o tráfico de drogas é dominado por clãs focados em distribuição local e não na internacionalização do tráfico. Há exceções como os clãs de Castedo e Loza, que de acordo com Sampó, tem rotas de distribuição internacional, mas que o pequeno tráfico ainda costuma ser a norma.

Há muitos elementos inibindo o PCC de vir para a Argentina: o país não é um produtor de drogas, o Estado tem mais controle das prisões que nos outros países e isso é refletido nas taxas de violência na rua”.

A conferência pode ser vista na íntegra em Português, Espanhol ou Inglês.