NEV na mídia | Folha de S.Paulo: Tarcísio muda sistema e câmeras vão ser acionadas por PMs ou de maneira remota em SP

23/05/2024

Daniel Edler, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), foi entrevistado para matéria de Paulo Eduardo Dias na Folha de S.Paulo a respeito de prováveis mudanças no uso de câmeras corporais pela Polícia Militar de São Paulo (PM-SP), após edital de licitação pública lançado na terça-feira (22). Carolina Ricardo, do Instituto Sou da Paz, também foi entrevistada na matéria, que ouve fontes do Governo do Estado e menciona processo judicial em curso, já analisado pelo Supremo Tribunal Federal, a respeito da implementação das câmeras pela Polícia Militar de São Paulo.

O documento que dirige a licitação indica, em suas especificações, que o equipamento seja ligado e desligado pelo agente de segurança ou, então, de forma remota pelo centro de operações da PM. “Quando elas só gravam com a intenção do policial, a redução do uso da força tem um grau muito mais baixo e já há vários estudos indicando que chega a ser irrisório ou até nulo”, ressalta o pesquisador.

Link original (disponível para assinantes): https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/05/tarcisio-muda-sistema-e-cameras-vao-ser-acionadas-por-pms-ou-de-maneira-remota-em-sp.shtml

 

Matéria na íntegra:

Paulo Eduardo Dias

23. mai. 2024 8h

 

O novo edital lançado pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) para a aquisição de 12 mil câmeras para a Polícia Militar sofreu alterações significativas em relação ao sistema atualmente em vigor, principalmente na forma como a gravação é feita.

Especialistas em segurança pública consultados pela reportagem apontam que o novo modelo pode trazer prejuízos para futuras investigações, ao deixar sob responsabilidade dos policiais na rua a ligação do equipamento.

Hoje a corporação conta com pouco mais de 10 mil câmeras que gravam de forma ininterrupta, sem que o policial precise ligá-las. Ele pode apenas acionar um dispositivo que melhora a qualidade da imagem e do áudio.

A Secretaria da Segurança Pública, chefiada pelo ex-PM Guilherme Derrite, confirmou à Folha a alteração no sistema de gravação.

A pasta disse que no atual modelo de gravação ininterrupta muitas vezes os equipamentos acabam sem bateria durante as ações policiais. Além disso, afirmou que há um alto custo de armazenamento, embora apenas uma pequena parte do material seja aproveitado posteriormente em investigações.

“Tais condições inviabilizavam a expansão do sistema. Deste modo, a pasta optou por um modelo de câmera com acionamento manual e remoto, ampliando as funcionalidades em relação ao equipamento anterior”, disse a secretaria, em nota.

Ainda segundo a pasta, ao enviar uma equipe para uma ocorrência ou ao ser notificado por policiais na rua de um caso, o Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) terá condições de verificar se o equipamento foi acionado ou não pelo agente. Em caso negativo, o dispositivo poderá ser ligado remotamente pela central.

A gestão Tarcísio afirmou também que o policial que não cumprir o protocolo será responsabilizado. “Todas as imagens captadas por meio dos equipamentos poderão ser acessadas de forma imediata e também ficarão armazenadas em um data center da Polícia Militar por tempo indeterminado”.

A Defensoria Pública de São Paulo e a ONG Conectas Direitos Humanos enviaram ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luís Roberto Barroso, um ofício em que demonstram preocupação com o novo plano estadual para o uso de câmeras corporais dos policiais militares. A informação foi antecipada pela coluna Mônica Bergamo no dia 19.

“O governo prometeu nos últimos meses que ia somar funcionalidades às câmeras corporais, e o que o edital está fazendo, na verdade, é substituir funcionalidades”, diz o pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP Daniel Edler.

“Está tirando da câmara os atributos que tornavam ela um equipamento bom para fiscalização do uso da força e transformando as câmaras só em um instrumento operacional da polícia. É por isso que vem com áudio bidirecional, com reconhecimento facial, com reconhecimento de placa”.

Essas três funcionalidades citadas por ele estão previstas no novo edital e não existem nas câmeras atuais.

Edler diz que estudos indicam que as câmeras que gravam ininterruptamente têm um efeito maior sobre a redução do uso da força. “Quando elas só gravam com a intenção do policial, a redução do uso da força tem um grau muito mais baixo e já há vários estudos indicando que chega a ser irrisório ou até nulo.”

Diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo afirma que o texto do edital não deixa claro como deve funcionar o formato das gravações.

“No programa atual, a câmera grava ininterruptamente, ela fica o tempo todo gravando e quando você tem uma ocorrência, o policial aciona a gravação intencional, então você pega áudio, você pega a gravação com maior precisão. O modelo atual do programa tem essa gravação ininterrupta porque ele serve para muitas coisas, inclusive um compliance mais amplo da atividade policial”.

O tema câmeras já sofreu várias reviravoltas na atual gestão, com declarações contrárias e favoráveis tanto de Tarcísio quanto de Derrite. O governador chegou a questionar a efetividade do uso dos equipamentos pelos policiais.

Porém, em abril ele assumiu o compromisso do uso de câmeras durante operações da PM no estado. O acordo foi feito com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, no âmbito de uma ação na qual a Defensoria Pública paulista pedia a obrigatoriedade do uso dos aparelhos nas ações.

Das 10 mil câmeras atualmente em funcionamento, o contrato de 3.000 vence no dia 1° de junho. Como elas funcionam em um sistema de comodato, deveriam voltar para a empresa dona dos equipamentos após esta data. Um segundo lote vence em julho.

A Secretaria da Segurança Pública, porém, afirmou que vai renovar os contratos atuais até que a nova licitação seja concluída e que não há risco de que faltem câmeras.

Pelo novo edital, as câmeras, a serem adquiridas por comodato por um período de 30 meses prorrogáveis por até 60 meses, devem ter funcionalidades extras como reconhecimento facial, reconhecimento de placas de veículos furtados ou roubados, entre outras especificações técnicas. A empresa vencedora também terá que manter funcionários no comando da PM para suporte.

De acordo com Carolina Ricardo tal situação sobrecarrega o equipamento. “Você muda o caráter do programa de câmeras quando insere todas essas funcionalidades, o sistema deixa de ser uma ferramenta de compliance da gestão da atividade policial, de profissionalização da atividade policial, com formação, com acompanhamento mais permanente das imagens, e tende a virar um programa de vigilância mais securitista”.

Outro ponto levantado por Carolina Ricardo são os prazos. O edital foi lançado nesta quarta com data de sessão pública para o dia 10 de junho.

“Considerando que é um edital extremamente complexo, que não se sabe se vai ter empresa com condição de apresentar todos esses requisitos, esse é um risco. Pode haver atraso no cronograma previsto. E se houver impugnação do edital, porque ele é tão complexo, ou algum outro problema, como é que eles vão fazer para garantir que o serviço não seja interrompido?”, acrescentou.

“Acho que esse é um risco real que a gente tem que enfrentar, não se pode interromper o serviço, que demorou anos para ser implantado, é supercomplexo, lidou com a resistência da tropa para funcionar e a gente não tem muita clareza se não vai ter interrupção.”

Conforme a gestão Tarcísio, o estado possui 10.125 câmeras corporais, as quais permitem cobrir 52% do trabalho operacional. “Com o novo edital, além de manter a cobertura atual e aperfeiçoar a tecnologia, haverá uma expansão de 18%, permitindo atender também outros comandos de policiamento”.