Nota de pesar a Luiz Antônio Machado da Silva

Luiz Antônio Machado da Silva

É com imenso pesar que o Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP) manifesta suas homenagens ao Professor Luiz Antônio Machado da Silva.

Machado foi um dos pioneiros da Sociologia Urbana e dos estudos sobre violência no Brasil. Seus conceitos e reflexões inspiraram e ainda inspiram uma série de pesquisadores destes campos. Construiu uma longa trajetória de ensino e pesquisa no IFCS-UFRJ e no IUPERJ (atualmente IESP-UERJ). Em seu percurso como pesquisador, realizou estudos relevantes sobre favela, sociabilidade e violência.

Cuidadoso na costura entre reflexão teórica e pesquisa empírica, o professor deixou diferentes marcas nas Ciências Sociais brasileiras e, mais especificamente, cariocas. Por um lado, sua vivência nas favelas da cidade e o trabalho de seus orientandos consolidaram as perspectivas etnográficas como formas privilegiadas de produção do conhecimento acerca das dinâmicas periféricas do Rio de Janeiro. Sem renunciar à reflexão crítica na construção e análise de seus objetos, os trabalhos de Machado e seus interlocutores se apoiaram na vivência da cidade, no cotidiano dos espaços habitados por um universo de atores complexos e diversos. Certamente, do ponto de vista teórico-metodológico, por um lado, um de seus legados é o chamado a estar na realidade, a vivê-la de perto como forma de refletir. Por outro lado, Machado evitou a renúncia à abstração e à imaginação sociológica. A noção de sociabilidade violenta, que ele mesmo recusava ser uma categoria abrangente de explicação do fenômeno da violência urbana, é exemplar de um sociólogo que escapa às armadilhas do senso comum, pensando as possibilidades de produção de sentido sobre o mundo a partir da experiência dos sujeitos, sem tomar como referências únicas as regras, leis e instituições.

Em 2008, publicou a coletânea “Vida sob cerco – violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro” (Faperj/Nova Fronteira). Resultado de vasto acúmulo, o livro reflete algumas características recorrentes na trajetória de Machado: pesquisa coletiva, atualidade teórica, preocupação com as questões do cotidiano.

Além de pesquisador refinado, foi também um professor dedicado e presente, o que tornava a sala de aula um espaço vivo e produtivo. Seu legado ultrapassa suas obras e deixa marcas que vão além de suas orientandas e orientandos, ao passar também por alunas(os), leitores(as) e todos aqueles que seguirão estimulados por suas formas inteligentes, dinâmicas e criativas de entender nossa sociedade.